Quinta-feira, Julho 27, 2006

Brasil oculto



Mostra de curtas metragens em São Paulo revela as diferenças culturais espalhadas pelas várias regiões do país
Carlos Minuano





Quer conhecer o Brasil, que tal começar pelo cinema? Algumas pessoas já pensaram nessa idéia e colocaram em prática. Mostrar para estudantes de diferentes regiões do país, através do cinema, um Brasil desconhecido. É essa a proposta de uma mostra de curtas metragens que será realizada no próximo sábado, 29, no Cine Sesc, em São Paulo. Oito documentários mostrarão um pouco das diferenças culturais espalhadas pelas várias regiões do país e servirão também como pano de fundo para um debate sobre cultura regional e cinema brasileiro.
Do catador de lixo paulista apaixonado por cinema, aos compositores desconhecidos de uma favela carioca, os filmes exibidos na mostra reúnem lugares comuns mas, ao mesmo tempo, distintos. “Ao falarmos sobre cinema no Brasil, não há como não pensar em nossas várias identidades regionais. Dentro de cada país existem especificidades que são marcas da nacionalidade. Em nosso caso, por exemplo, são realidades muito diversificadas e imensamente desconhecidas”, observa Assunção Hernandez, produtora de cinema, responsável pela mostra.
Aberta ao publico em geral, a exibição dos filmes encerra uma série de atividades promovida pela AUI (Associação Universitária Internacional), que busca estimular a integração entre jovens de diversas partes do país. Estudantes, com perfil de atuação comunitária e de liderança estudantil, vindos de oito estados brasileiros, foram selecionados para participar gratuitamente do programa. “Além de expor nossas peculiaridades regionais, a intenção é conscientizá-los de que, na verdade, apesar de tantas diferenças, somos uma única nação”, analisa Sandra Serpa, diretora da AUI.
A AUI é sucessora de uma entidade americana que existiu nas décadas de 60 e 70, chamada Associação Universitária Interamericana (Interamerican University Foundation) que promovia um programa de intercâmbio para estudantes e professores. Hoje é composta por ex-bolsistas que ao longo de dez anos, entre 1962 e 1971, participaram desse programa original. Em um formato menor, a atual edição promovida pela entidade, que segue até o dia 31 de julho, busca resgatar o antigo modelo, proporcionando eventos em diversas naturezas. Além do cinema, os estudantes farão diversos passeios pela cidade e visitas a locais como os Museus da Língua Portuguesa, do Ipiranga, do Imigrante, participam também de debates e palestras, entre outras atividades.
Serviço
Sessão de Cinema e debates sobre o cinema nacional
Sábado 29 de julho, das 9h às 12h
Cine Sesc – Rua Augusta, nº 2.075 - Cerqueira César
Telefone: (011) 3082-0213
Entrada gratuita
Programação
ZAGATI (Documentário, 2001,16min, cor, 35mm) - São Paulo
Zagati é catador de lixo na periferia de São Paulo. Apaixonado por filmes desde criança, consegue montar, aos 50 anos, um pequeno cinema na garagem de casa - todo feito com peças que encontrava em suas coletas. De Edu Felistoque e Nereu Cerdeira
RÁDIO GOGÓ (Ficção, 1999, 20 min, cor, 35mm) - Bahia
A paixão de Gogó por futebol não tinha limites. Sua vida era narrar partidas de futebol de bairro. Depois de narrar espetacularmente a final da copa de 94, onde o Brasil sagra-se campeão, Gogó revela um segredo mantido a sete chaves desde 1970. De José Araripe Jr, com Cacó Monteiro, Isabel Marinho, Carine Santos, Wagner Moura
PATATIVA (Animação / documentário, 2001, 10min, cor, 35mm) - Ceará
Vida e obra de Patativa do Assaré. A trajetória desse homem, personagem, mito. Poeta embevecido pela compreensão crítica do mundo. De Ítalo MaiaNEGÓCIO FECHADO (Ficção, 2001, 15min, cor, 35mm) - Minas GeraisDois compadres se encontram para um negócio de compra e venda de gado. O interessado em comprar enche de defeitos os animais. O que está vendendo, naturalmente, só tem elogios. Mas além da qualidade do produto eles precisam também acertar o preço... De Rodrigo Costa, com Camilo Bevilacqua, Fernando Alves Pinto, Reinaldo Gonzaga, Thaís Garayp
O POETA (Ficção, 2001, 10min, cor, 35mm) - Paraná
Misturando técnicas de animação 2D, 3D e rotoscopia sobre imagens captadas digitalmente, o filme mostra um poeta cercado por sua imaginação, lembranças e delírios enquanto escreve uma carta. De Paulo Munhoz
NO PASSO DA VÉIA (Ficção, 2002, 13min, cor, 35mm) – Pernambuco
Uma velha vai andando da colônia de pescadores onde mora até a cidade mais próxima para vender uma galinha e assim poder comprar um presente de aniversário para o seu neto.De Jane Malaquias, com Francisca Ribeiro da Silva e Luciano Araújo
CORUJA (Documentário, 2001, 15min, cor, 35mm) - Rio de Janeiro
A relação de Bezerra da Silva com seus compositores, anônimos garimpados por ele "onde a coruja dorme", nos morros cariocas e na baixada fluminense. Daí surgem sambas feitos por trabalhadores, crônicas cáusticas mas bem-humoradas de gente simples que mora na favela e conta seu dia-a-dia nas músicas.De Márcia Derraik e Simplício Neto com Bezerra da Silva e seus Compositores
ILHA DAS FLORES (Documentário / experimental, 1989, 13min, cor, 35mm) – Rio Grande do Sul
Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho. De Jorge Furtado com Ciça Reckziegel
SINISTRO (Ficção, 2000, 17min, p&b, 35mm) – Distrito Federal
Um homem entra no táxi para encontrar uma cliente. Um acidente sinistro acontece e, ao longo da história, os diferentes personagens apresentam alguma conexão com o fato. De René Sampaio com Abidon Buccar, André Luis de Oliveira, Antonio Fragoso, Cristian, Denilson Félix, Fabio Nasar, Graça Veloso, João Paulo, Murilo Grossi, Paulo Duro, Vitor Leal.
Fotos: Cena do filme "Zagati"
Carta Maior

Terça-feira, Julho 04, 2006

VIDA DE ÍNDIO

Guaranis desvendam em espetáculo cotidiano das aldeias

Onze aldeias indígenas se reúnem em São Paulo para o lançamento do CD Ñande Arandu Pyguá, em espetáculo musical e teatral que reproduz o cotidiano guarani.
Carlos Minuano

SÃO PAULO - Deus, a mata, os pássaros, a terra, o caminho em busca da terra sem males. Esses são alguns temas freqüentes no cântico dos índios guaranis. Mas para eles é bem mais do que simples música. Representa uma espécie de ponte entre a terra e o sagrado. Milagre ou não, foi também o caminho encontrado pelas aldeias de São Paulo para resgatar a identidade cultural de seu povo, ameaçada pela miséria e pela proximidade com o caos urbano paulista e a sociedade não-indígena.

Neste fim de semana, quem quiser poderá entrar em contato com o universo dos índios guaranis e saber um pouco mais sobre o modo de vida desse povo. Um espetáculo musical que será realizado no teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo, nos dias 1 e 2 de julho, trará pitadas do cotidiano e da vida em comunidades indígenas localizadas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Com a participação de aproximadamente 120 crianças e jovens guaranis e tupi-guaranis, também será lançado durante o evento o CD Ñande Arandu Pyguá.

O disco que reuniu 11 aldeias é parte do projeto Memória Viva Guarani do Instituto Teko Arandu, entidade sem fins lucrativos coordenada pelos próprios índios, voltada à pesquisa e à recuperação do acervo cultural desse povo, é, aliás, o segundo CD lançado pelo projeto, em 1999 estreavam com o Ñande Reko Arandu. O garimpo musical desta vez traz raridades como o Kunhã Mimby, flautas femininas quase em extinção, a fala de um pajé, e o pilar central da sonoridade guarani: os cânticos das crianças, segundo a tradição, encaminhados diretamente por Nhanderu, o criador de tudo que existe.

CÂNTICOS SAGRADOS

A relação do povo guarani com a musica é histórica e antecede o encontro com o branco, conforme explica Timóteo, cacique da aldeia Tenondé Porã, Parelheiros, extremo sul da capital paulista, onde as gravações foram realizadas. “Desde muito tempo os guaranis já possuem vários instrumentos, o violão de madeira leiteira, o violino feito de casca de tatu, e tudo utilizando uma afinação própria”, conta o líder indígena. Entrelaçada aos seus mitos e crenças, a música para eles ocupa um lugar sagrado. “Mantivemos essa sabedoria milenar por mais de quinhentos anos, ela é muito importante para nós”, reforça o cacique. O canto infantil se insere justamente neste contexto, para eles esses cânticos seriam imbuídos do poder de fortalecer a comunidade e de protegê-los dos males mundanos.

O espetáculo, realizado neste fim de semana, pretende mostrar como é o dia em uma aldeia guarani. Uma experiência inédita onde o elenco é composto pelos próprios índios, o que garante a veracidade da apresentação. A história se passa durante a chegada de parentes, vindos de outras aldeias, para a cerimônia do Arapyau (que corresponde às estações da primavera e verão). No decorrer da festa religiosa os atores indígenas apresentam seus costumes e ritos, seu modo de vida e cultura. Oficinas de danças tradicionais, pintura corporal e confecção de colares também constam no roteiro do evento.

SERVIÇO

Espetáculo musical e lançamento do CD Ñande Arandu Pyguá - Memoria Viva Guarani

Quando: sáb., 21h e dom., 18h
Onde: Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme,195, Pinheiros, região oeste, tel. 3095-9400
Quanto: R$ 5 a R$ 10

(A renda adquirida com a venda do CD será integralmente revertida aos trabalhos do Instituto Teko Arandu – Memória Viva Guarani)


Agência Carta Maior