Terça-feira, Junho 16, 2009

Greve na USP: bombas de gás, spray de pimenta e cacetadas de montão




Em sua coluna na edição desta segunda-feira, 15, do jornal Folha de S. Paulo, o jornalista Fernando de Barros e Silva critica o “comportamento autoritário de minoria de funcionários da USP”, em greve desde 5 de maio, que estaria intimidando colegas. Segundo ele, “grupelhos pautados por estupidez teórica e desprezo sistemático pelos direitos dos outros”. Para o jornalista, foi esse “fascismo de esquerda” o responsável pelo imbróglio da semana passada que levou à ocupação da USP pela PM, com bombas de gás, balas de borracha, spray de pimenta, escudos e, claro, cacetadas de montão.

A versão de quem esteve na linha de fogo é outra. Caso do professor Pablo Ortellado. Em sua avaliação, “a situação é gravíssima”. Ele responsabiliza a reitora Suely Vilela, que teria autorizado uma “barbárie que atenta contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação”. De acordo com a reitoria da USP, está agendada para terça, 16, reunião de retomada das negociações entre a instituição, professores e funcionários, suspensas desde o último dia 25. Também na agenda do mesmo dia, ato de repúdio à repressão na universidade, organizado por professores da universidade, que deve contar com a participação do professor Antonio Candido e da filósofa Marilena Chauí.

Segue logo abaixo, depoimento de Ortellado, em primeira pessoa, que circula na web, detalhando o confronto ocorrido no último dia 9, de soldados da Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo com estudantes, professores e funcionários da USP.

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“Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaçose machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas). Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás.

A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando. Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado). Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos.

Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos. A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário. Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.

Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente.

Cordialmente,

Prof. Dr. Pablo Ortellado
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo”

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Conectando realidades

Para o Cultura e Mercado

Teve início nesta terça-feira, 19, o primeiro encontro da RAIA (Rede Audiovisual Ibero-Americana), no Centro Cultural da Espanha, em São Paulo. O encontro marca o início da construção de uma rede de cooperação entre articuladores internacionais para pesquisar e debater novas formas de pensar, fazer e divulgar conteúdos audiovisuais em países ibero-americanos, considerando a produção local e global.

O encontro é promovido pelo Divercult, organização cultural internacional fundada no Brasil, hoje com sede na Espanha e financiado pela Aecid (Agencia Espanhola de Cooperación Internacional para el Desarrollo).

Na abertura do evento, Ana Tomé, diretora do Centro Cultural da Espanha em São Paulo/ Aecid, deu as boas vindas aos participantes e falou sobre as atuais estratégias de cooperação para o desenvolvimento em países ibero-americanos. “A América Latina seguirá como foco principal”, disse.

A diretora ressaltou ainda que o objetivo da Aecid não é o patrocínio, mas parcerias voltadas ao desenvolvimento. “Há casos em que um apoio de logística ou infra-estrutura vale mais que a ajuda financeira”.

Em seguida, Fernanda Martins, presidente do DiverCult, falou sobre a proposta da organização. “Nosso objetivo é investigar práticas, agentes e métodos que contribuam para o diálogo cultural, fomentar a articulação entre os representantes destas práticas e difundir o que for mapeado”.

Ela apresentou também o projeto Conversas Diversas, plataforma de pesquisa-ação com foco na busca de alternativas para o desenvolvimento de políticas e práticas culturais. Outra ação destacada por Fernanda é a produção do webdocumentário “Te Están Grabando”, que vai analisar os efeitos da industria cinematográfica hollyoodiana sobre as culturas locais.

Perpassa todas as iniciativas, o estímulo ao processo de cooperação. Para Leonardo Brant, que coordena a metodologia da rede e dirige o documentário, “o encontro entre experiências similares em regiões distintas pode colaborar para que cada uma se fortaleça individualmente”. A ideia do evento em São Paulo, segundo ele, é justamente descobrir os caminhos para que isso ocorra de forma efetiva.

À tarde, quem abriu o debate foi Luis Algarra, que falou sobre seu trabalho de construção de redes sociais comunidades, empresas e organizações diversas. “Não basta ter a tecnologia, é preciso atitude, é onde entramos, estimulando a ação das pessoas”, explicou.

Segundo Algarra, a partir do uso de diferentes técnicas de conversação é possível fazer com que integrantes de uma determinada rede encontrem, a partir de suas individualidades, fluxos de ação harmônicos, mesmo sem consenso entre idéias e opiniões.

O tema rendeu um extenso debate acerca da natureza das redes, não apenas no ambiente virtual, mas também no real. Colaboração, convivência, exposição e competição foram alguns dos temas de reflexão entre os participantes. “Não há outro caminho, temos que conversar”, observou Algarra.

Encerraram as atividades do primeiro dia do encontro, o chileno Dino Pancani, que falou sobre o projeto Tramas, trabalho com conteúdos audiovisuais voltado à educação; e o boliviano Humberto Mansillas do Centro de Gestión Cultural Pukañawi, que apresentou o Festival Internacional de Cine de Los Derechos Humanos, realizado há cinco anos na Bolívia.

www.culturaemercado.com.br